O que é Gestão de Produtos de Software?

Já temos a definição de produto de software, vimos vários exemplos e várias formas de classificar esses produtos, e conhecemos a diferença entre produto e plataforma. Agora, vamos definir a função de gestão de produtos de software:

GESTÃO DE PRODUTOS DE SOFTWARE

Gestão de produtos de software é a função responsável por todos os aspectos de um produto de software, durante todo o ciclo de vida desse produto, desde a sua concepção até o fim de sua vida.

É a função responsável por fazer a conexão entre a estratégia da empresa e os problemas e necessidades dos clientes por meio do produto de software. Este deve, ao mesmo tempo, ajudar a empresa a atingir seus objetivos estratégicos, e solucionar os problemas e as necessidades dos clientes.

Essa definição deixa três pontos bem importantes bem claros:

  • O primeiro é a responsabilidade por todos os aspectos de um produto de software. Isso significa que um gestor de produtos de software deverá se preocupar com a experiência do usuário e com a engenharia de seu produto, incluindo sua arquitetura, infraestrutura e operação. Também deverá se preocupar com questões legais e financeiras, suporte ao cliente, e marketing e venda do produto.

Preocupar-se não significa fazer todas essas coisas. Na sua empresa, existem pessoas e áreas dedicadas a cuidar desses temas. Por isso, preocupar-se significa entender esses aspectos, quais são as suas relações com o produto, e como o produto impacta cada uma dessas áreas. Esse será o tema da Parte III — Relacionamento com as outras áreas, onde falarei sobre a relação entre gestão de produtos de software e as outras áreas da empresa.

  • O segundo ponto é que essa responsabilidade ocorre durante todo o ciclo de vida do produto. Como vamos ver na Parte II — Ciclo de vida de um produto de software, o ciclo de vida de um produto tem diferentes fases, e cada uma delas requer atenção especial.
  • O terceiro ponto é a conexão que a gestão de produtos deve fazer entre os objetivos estratégicos da empresa e os problemas e necessidades dos clientes, que é o que veremos a seguir.

ALINHANDO ESTRATÉGIA DA EMPRESA COM NECESSIDADES DE CLIENTES

O terceiro ponto bem importante da definição de gestão de produtos de software é a responsabilidade por garantir a conexão entre a estratégia da empresa e os problemas e necessidades dos clientes. É na interseção entre os objetivos do negócio e a solução dos problemas ou necessidade dos clientes que se encontra a gestão de produtos de software, como vemos na figura a seguir:

Essa é a teoria, e tudo parece simples na teoria. Contudo, como todos nós sabemos, na prática é outra coisa. A gestão de produtos de software na vida real está bem melhor representada pela figura:

Nessa imagem, vemos Louis Cyr (http://en.wikipedia.org/wiki/Louis_Cyr) que foi considerado em 1890 o homem mais forte do mundo em sua época por ter levantado 227 kg com apenas 3 dedos e 1.967 kg em suas costas!

Ela representa melhor a função de gerenciamento de produtos digitais, porque nem sempre é simples conciliar os objetivos da empresa e a solução para um problema ou necessidade de um cliente. Um exemplo simples é o Facebook que, como qualquer outra empresa, precisa de receita para pagar seus custos e dar algum retorno aos seus investidores. Esse é o objetivo comercial do Facebook. Por outro lado, encontramos os usuários do Facebook, que acessam o sistema gratuitamente e não têm interesse em pagar por esse acesso.

O gestor de produtos do Facebook tinha então de encontrar uma forma de obter receita, mas sem cobrar dos usuários. A solução foi encontrar um outro tipo de cliente, os anunciantes, dispostos a pagar para exibir anúncios para os usuários do site.

Esta imagem está incompleta…

A primeira imagem está incompleta. Ela fala em objetivos estratégicos da empresa e em problemas e necessidades dos clientes. Contudo, um gestor de produtos não pode olhar apenas para esses dois itens. Há um terceiro item muito importante que é a tecnologia disponível.

O gestor de produtos precisa conhecer a tecnologia disponível para saber se é possível resolver o problema ou a necessidade do cliente, atendendo aos objetivos estratégicos da empresa. Veja a figura a seguir:

O CORE TEAM DE DESENVOLVIMENTO DE PRODUTOS DE SOFTWARE

As três preocupações vistas anteriormente nos dão a dica do que compõe o sucesso de um produto. Um produto de sucesso deve ser:

  • Desejável: resolve problemas ou necessidades de clientes;
  • Viável: atende aos objetivos estratégicos da empresa; e
  • Possível de ser construído: existe tecnologia disponível para desenvolvê-lo.

Esses três quesitos definem as três funções essenciais para se criar um produto de sucesso: designer de UX (User eXperience, ou Experiência do Usuário), gestão de produtos e desenvolvedor. Esse trio é considerado o core team (time principal) para o desenvolvimento do produto, e deve estar bem alinhado em todas as fases do seu desenvolvimento.

Viável — o que sustentará o negócio?

O gestor de produtos tem duas responsabilidades principais: avaliar as oportunidades do produto e definir o produto que será construído. Depois de avaliado e decidido que vale a pena desenvolver o produto, ele inicia a fase de descobrir exatamente como ele deve ser (junto com o core team), incluindo as funcionalidades necessárias, a experiência do usuário e os critérios para o lançamento. Além disso, está em suas mãos determinar o modelo de negócio que deverá ser seguido, e interagir com praticamente todas as outras áreas da empresa para definir questões jurídicas, contábeis, financeiras, de marketing, de distribuição etc.

Desejável — o que as pessoas precisam?

É aqui que entra a Experiência do Usuário (UX). Há vários papéis em um time de UX, porém, o que trabalha em maior colaboração com o gestor de produtos é o designer de interação. Ele é responsável por buscar um profundo entendimento dos usuários, descobrindo suas motivações, comportamentos e habilidades; ajudar na definição dos requisitos e, assim, desenhar uma interface que torne a interação do usuário com o produto a mais simples e eficiente possível, ao mesmo tempo em que atenda aos objetivos do negócio.

Possibilidade — o que podemos construir?

O Engenheiro ou Desenvolvedor de Software é o responsável por construir o produto efetivamente. Seu papel é importante na fase de descoberta do produto para dizer ao seu gestor e ao designer de UX o que é possível ser feito, avaliar o custo das diferentes ideias propostas e ajudar a identificar as melhores soluções. É sua responsabilidade definir a tecnologia e a arquitetura mais apropriadas para desenvolver um produto de qualidade.

QUAL A DIFERENÇA ENTRE GERENCIAR UM PRODUTO OU UMA PLATAFORMA?

Com produtos de software, a preocupação é apenas com um único tipo de cliente. Em uma plataforma, se ela for single-side, além de se preocupar em entender um único tipo de cliente, é preciso entender como ele se relaciona entre si.

Já se a plataforma for multi-sided, você deve se preocupar com dois ou mais tipos diferentes de usuários, e a relação entre usuários de mesmo tipo e de tipos diferentes. As preocupações, tanto do gestor de produtos como de todas as pessoas que trabalham no desenvolvimento da plataforma, podem ser bem mais complexas do que em um produto com um único tipo de cliente.

Uma estratégia de plataforma deve mudar as prioridades da empresa dona dessa plataforma, uma vez que o cliente não enxerga valor unicamente nas funcionalidades do produto que estão 100% sob controle da empresa. Além das funcionalidades, o cliente busca valor nas interações com terceiros, e é responsabilidade da empresa (dona da plataforma) gerenciar essas relações, para obter os melhores resultados tanto para os participantes da plataforma quanto para si mesma.

Novas preocupações na gestão de plataformas

Quem gerencia plataformas, além de todas as preocupações de gestão de produtos que descrevo aqui no livro, deve também se preocupar com dois novos aspectos:

As funcionalidades dependem da participação dos usuários: em inglês, usa-se o termo tipping para essa preocupação, ou seja, como fazer a plataforma ganhar usuários para ela poder ser útil para quem participa dela? Algumas estratégias para fazer isso são:

Primeiro usuário: conseguir um primeiro usuário que, por si só, já atrai outros usuários. Essa é uma tática muito usada por shoppings quando fecham com uma loja de departamentos, que já atrai compradores suficientes por si só. Depois, é só falar com outras lojas, que certamente terão mais interesse em estar no shopping.

  • Social: outra forma de conseguir usuários é usar redes e mecanismos sociais para conquistar mais usuários. Algo como “chame seus amigos do Facebook”.
  • Usuário líder: descobrir qual o perfil do usuário que vai ser fortemente atraído pela ideia, ao ponto de ser o primeiro a adotar a plataforma. Bitcoin atraiu inicialmente várias pessoas de tecnologia, que se apaixonaram pela ideia de um dinheiro não atrelado a um governo, e são ferrenhos defensores da ideia.
  • Pense nos benefícios como produto: o próprio produto tem benefícios suficientes por si só. O Instagram, antes da funcionalidade de compartilhar, era capaz de fazer fotos ficarem legais. O OpenTable, antes da funcionalidade de reservas, era um ótimo ERP (Enterprise Resource Planning) para restaurantes.
  • Considere reduzir preços: é uma estratégia válida para atrair usuários, mas vale lembrar de que é difícil aumentar o preço depois, principalmente se você reduzir o preço para zero. Claro, você pode subsidiar com anúncios, mas você precisa saber se seus usuários vão aceitar anúncios e se você vai conseguir anunciantes que queiram pagar.

Há também funcionalidades que dependem de os usuários se comportarem bem: em inglês, o termo usado para isso é coring, ou seja, como garantir que os usuários não vão tirar proveito um do outro, assegurando sempre que todos os participantes tenham benefícios? Algumas estratégias para cuidar do coring:

  • Promova confiança: sites de leilão e de pagamento online costumam fazer isso, segurando o dinheiro do comprador até que ele diga que recebeu o produto que lhe foi vendido.
  • Ofereça informação de qualidade: normalmente, aqueles ratings feitos pelos usuários. O grande risco aqui é gerenciar os ratings falsos; positivos feitos pela própria pessoa ou empresa que está sendo analisada, e negativos pelos concorrentes.
  • Restrinja o uso: torne a associação e o uso mais restrito, o que trará sim menos usuários, mas mais usuários de qualidade. É o que fez um site chamado eHarmony, de procura de namorado(a). Ele cobra uma mensalidade razoavelmente cara (U$ 50.00) e tem um questionário bem extenso para ser preenchido. Além disso, mesmo que seu algoritmo de matchmaking encontre várias opções, ele só apresentará um número limitado para facilitar o processo de escolha.

Concluindo

É importante entender se você está trabalhando em um produto ou em uma plataforma, pois existem algumas diferenças em gerenciar cada um deles.

Uma plataforma precisa de uma estratégia para atrair os primeiros usuários, e isso é tão ou mais importante do que as funcionalidades. Como gestores de um produto de software, temos a tendência de ficar animados com funcionalidades técnicas, entretanto, nas plataformas, o foco é ainda maior nos usuários, em suas relações e em como atrair os primeiros usuários. Além disso, gerir uma plataforma requer controle e governança dos relacionamentos dentro da plataforma, para garantir que todos os participantes estejam se beneficiando com ela.

Uma vez que já entendemos o que é a gestão de produtos de software, e quais as diferenças entre gerir um software e gerir uma plataforma, precisamos agora entender o que é um gestor de produtos de software. Esse é o tema do próximo capítulo!

Gestão de produtos digitais

Este artigo faz parte do meu livro “Gestão de produtos: Como aumentar as chances de sucesso do seu software”, onde falo sobre o que é gestão de produtos digitais, seu ciclo de vida, que ferramentas utilizar para aumentar suas chances de sucesso. Você também pode se interessar pelos meus outros dois livros:

Digital product development advisor, mentor, board member. And open water swimmer!

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